Cirurgia bariátrica em crianças não deve ser negada apenas com base na idade, defendem especialistas

Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck

Notificação

13 de outubro de 2016

A obesidade na infância e na adolescência representa um desafio na atualidade. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, globalmente, o número de crianças com excesso de peso com idade inferior a cinco anos foi estimado em mais de 42 milhões em 2013, sendo que, desse total, quase 31 milhões viviam em países em desenvolvimento[1]. Dada a gravidade da situação, alguns especialistas começam a defender a necessidade de, em alguns casos, realizar a cirurgia bariátrica em crianças obesas. Uma dessas vozes é a do médico Aayed Alqahtani, cirurgião da King Saud University, em Riyadh, na Arábia Saudita. Em um simpósio realizado no XXI Congresso Mundial da Federação Internacional de Cirurgia da Obesidade e Distúrbios Metabólicos – IFSO 2016, Dr. Alqahtani argumentou que a cirurgia pode representar, em determinados casos, a única possibilidade de salvar a vida dessas crianças.

O cirurgião, que já operou crianças obesas com quatro anos de idade, lembrou que estudos mostram que o índice de massa corporal (IMC) na infância está associado com adiposidade na vida adulta[2]. Além disso, citou diferentes comorbidades associadas à obesidade na infância, por exemplo, prejuízo neurocognitivo[3], diabetes tipo 2[4] e risco cardiovascular[5].

A cirurgia bariátrica, afirmou o Dr. Aayed, tem se mostrado segura e bem-sucedida em grupos pediátricos[6,7]. O especialista destacou, no entanto, que os grupos mais jovens de crianças ainda permanecem excluídos da maioria das diretrizes. Ele lembrou, por exemplo, um estudo publicado em 2013 no International journal of environmental research and public health[8]que avaliou a opinião de membros da British Obesity and Metabolic Surgery Society e profissionais de cuidados primários sobre cirurgia bariátrica em adolescentes. Os autores observaram que a maioria dos participantes acreditava que a cirurgia bariátrica deveria ser oferecida apenas para pacientes a partir dos 16 anos.

O Dr. Alqahtani lembrou que a prevalência de comorbidades em crianças obesas é similar à de adolescentes obesos, mas a gravidade é maior no primeiro grupo. Ele destacou que a cirurgia bariátrica é uma opção metabólica eficaz para crianças pequenas, visto que resolve muitas doenças, entre elas, diabetes e hiperlipidemia, em todos os grupos etários.

"Quando há disponibilidade de uma solução comprovadamente segura e eficaz, e havendo risco à vida, negar a cirurgia bariátrica para crianças com base na idade é antiético", defendeu o médico.

Para o Dr. Samer Mattar, professor e chefe da Divisão de Cirurgia Bariátrica da Oregon Health & Science University, em Portland(EUA), que discorreu sobre aspectos éticos e legais da cirurgia bariátrica em pediatria, vários desafios envolvem a questão, como por exemplo, "o fato de a criança obesa ainda estar em desenvolvimento físico e mental e o fato dela ser vulnerável e ter autonomia reduzida."

No entanto, segundo o cirurgião americano, sabe-se que os pacientes obesos estão sujeitos a prejuízo, estigma e discriminação. "A obesidade ainda é interpretada por muitos como uma escolha e uma responsabilidade pessoal, o que faz com que a criança se sinta culpada e envergonhada", lembrou. Mas, os pais também podem perceber a obesidade dos filhos como uma falha pessoal e "ver a cirurgia como uma solução conveniente".

A questão socioeconômica também é relevante, pois, segundo o Dr. Mattar, crianças de famílias com baixa renda e de minorias étnicas são afetadas pela obesidade de forma desproporcional. O médico destacou ainda a ausência de estudos de longo prazo, com resultados de alta qualidade sobre o assunto.

Técnicas possíveis

Se a cirurgia bariátrica é um recurso possível para pacientes pediátricos, qual seria então a melhor técnica? Para tentar responder a essa questão, o Dr. Marcos Leão Vilas Bôas, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) e diretor da Clínica Baros - Cirurgia Bariátrica e Metabólica, em Salvador (Bahia), apresentou, durante o evento diferentes procedimentos possíveis. Segundo ele, as evidências apontam para três principais: em primeiro lugar, está o bypass gastrointestinal (gastric bypass), seguido pela gastroplastia em manga (sleeve gastrectomy) e depois pela banda gástrica (band).

A Dra. Marina Kurian, fellow do American College of Surgeons e membro da Society of American Gastrointestinal and Endoscopic Surgeons (SAGES) e da American Society for Bariatric Surgery , apresentou dados sobre o papel das bandas no tratamento cirúrgico de adolescentes obesos, ressaltando a necessidade de uma seleção cuidadosa dos pacientes, bem como o monitoramento em longo prazo. Além disso, lembrou que o dispositivo não deve ser muito apertado e que há necessidade de esofagograma anual e medicações.

Impacto psicológico da cirurgia

O Dr. Adriano Segal, médico psiquiatra, responsável pelo setor de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) e psiquiatra do AMBOS (Ambulatório de Obesidade e Síndrome Metabólica do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do HC Faculdade de Medicina da USP), citou um estudo publicado no International Journal of Obesity[9]que revelou que dois terços dos adolescentes submetidos à cirurgia tinham história de psicopatologia. Após o procedimento, a qualidade de vida aumentou significativamente entre os pacientes.

Benefícios em curto prazo em outros parâmetros também têm sido reportados após a cirurgia. Ele citou, por exemplo, melhora nos sintomas de ansiedade, depressão, raiva e melhora no autoconceito[10,11]. Por outro lado, alguns trabalhos mostram que cerca de 20% dos adolescentes podem experimentar problemas mentais substanciais após a cirurgia bariátrica[12]. Em um estudo publicado este ano no Surgery for obesity and related diseases pesquisadores chamam atenção para a alta prevalência de ideação suicida em adolescentes dois anos após a cirurgia é defendem que isso é um indicativo de que um acompanhamento maior é necessário.

Segundo o médico, após a cirurgia bariátrica nessa população é preciso atenção também ao uso de substâncias, especialmente abuso de álcool.

"Essa situação deve ser cuidadosa e continuamente triada", disse, lembrando que "cuidado em saúde mental pós-operatório é obrigatório, não optativo: cuidado psiquiátrico em associação com atendimento psicológico é a opção certa".

Posicionamento da SBCBM

O Dr. Alvaro Ferraz, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), lembrou que uma revisão publicada este ano na Endocrinology & Metabolism Clinics resume que a cirurgia bariátrica é mais eficaz do que os tratamentos conservadores nessa população[13].

No Brasil, de acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), jovens entre 16 e 18 anos podem ser submetidos à cirurgia bariátrica, sendo que riscos e benefícios devem ser analisados. Além disso, o pediatra deve fazer parte da equipe multiprofissional e deve considerar a consolidação das cartilagens das epífises de crescimento dos punhos.

"A literatura tem mostrado que a cirurgia bariátrica em pacientes adolescentes não é um procedimento experimental", destacou ele.

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